Recensão, por Fernando António Baptista Pereira

Em cuidada edição, que conta com o apoio da Diocese de Santarém e das Paróquias, da Câmara Municipal e das Freguesias da Cidade de Torres Novas, assim como com o patrocínio do QREN e do Programa de Regeneração Urbana do Centro Histórico, foi publicado um novo livro de Vitor Serrão sobre a arquitetura e o património integrado e móvel de três igrejas de Torres Novas – a do Salvador, a de Santiago e a de S. Pedro – num feliz exemplo de conjugação de esforços entre entidades públicas, entidades eclesiais e a investigação universitária.

O livro apresenta uma estrutura simples, iniciando-se com uma Introdução, com cerca de 15 páginas, que, além de referências à metodologia adotada na investigação que acompanhou os programas que permitiram a recuperação dos imóveis em questão, nos integra nos circunstancialismos históricos do Concelho, terra da Coroa exceto durante o domínio da Casa de Aveiro (entre 1520 e 1758), e na fortuna crítica anterior sobre o património torrejano. Seguem-se os capítulos dedicados a cada uma das três igrejas, com as respetivas notícias históricas, leitura arquitetónica e do património integrado e móvel (pp. 33-124). O último capítulo é inteiramente ocupado com biografias atualizadas dos diferentes artistas identificados nas obras das três igrejas ao longo de três séculos (XVI-XVIII), sobretudo pintores, mas também arquitetos, pedreiros, imaginários, entalhadores e até um organeiro (pp. 129-199). Finalmente, após uma curta conclusão e antes da vasta bibliografia referenciada, são transcritos trinta e quatro documentos, na sua maioria inéditos, relativos às obras e aos artistas citados (pp. 203-258).

Tratando-se de uma obra monográfica sobre três igrejas, que foram recentemente intervencionadas, estranha-se que apenas se publique a planta de uma delas, a de S. Pedro, aquela que apresenta elementos de antiguidade mais significativos. Apesar de serem igrejas arquitetonicamente pouco relevantes, a leitura das respetivas plantas ajudaria a esclarecer as campanhas de obras referidas. Não obstante, o livro encontra-se devidamente documentado e bem ilustrado, tanto ao nível da arquitetura como do património integrado e móvel, salientando-se os retábulos em talha, os revestimentos azulejares (nomeadamente os painéis de Gabriel del Barco), alguma escultura monumental e funerária (como a arca sepulcral gótica dos fundadores da igreja de S. Pedro), uma ou outra peça de imaginária (como o Senhor Jesus dos Lavradores, porventura quatrocentista) e, sobretudo, a pintura. É, de resto, neste sector que o livro apresenta alguns dos seus mais valiosos contributos, nomeadamente obras sobre tábua atribuídas à oficina de Diogo Contreiras, um curioso fresco do até à data muito pouco conhecido Baltazar Cardoso, uma estimável tela de Bento Coelho e quatro outras do seu bem mais modesto seguidor António Machado Sapeiro, e um interessantíssimo conjunto afrescado setecentista da autoria do italiano Orazio de Ferri, descoberto sob talha pós-terramoto na capela de planta centralizada do Senhor Jesus dos Lavradores, na igreja de Santiago, e infelizmente recoberto após trabalhos de conservação.

Recensão crítica por Fernando António Baptista Pereira, Invenire, nº 6 (Jan.-Jun. 2013) p. 75-76

OBRA

Vítor Serrão ‐ As Igrejas do Salvador, São Tiago e São Pedro de Torres Novas. Lisboa: Instituto de História de Arte/Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2012, 278 p.