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Recensão crítica, por Sara Augusto

São Teotónio. Patrono da Diocese e da cidade de Viseu. 1162-2012. Coordenação de João Soalheiro e Maria de Fátima Eusébio. Viseu, Diocese de Viseu e Câmara Municipal de Viseu, 2013.

Esta edição pretende assinalar as comemorações jubilares de São Teotónio que decorreram entre fevereiro de 2012 e fevereiro de 2013. Integra o catálogo da exposição São Teotónio. Patrono da Diocese e da cidade de Viseu. 1162-2012, produzida pela Diocese de Viseu e pela Câmara Municipal de Viseu, que teve o Reverendo Bispo de Viseu, D. Ilídio Pinto Leandro à cabeça da Comissão de Honra. Como se afirma no texto introdutório dos coordenadores do volume, e comissários da exposição, João Soalheiro e Maria de Fátima Eusébio, a exposição propôs, tendo em conta os 850 anos da morte de S. Teotónio, e no horizonte de nove séculos da sua presença à frente dos destinos da Igreja local, a evocação de uma figura marcante do percurso coletivo dos portugueses. Sobre a estrutura da exposição acrescenta-se ainda que a sua narrativa expositiva teve como fio condutor o texto da Vita beatissimi domni Theotonii, escrita por um discípulo anónimo depois da morte do primeiro Prior de Santa Cruz de Coimbra. O projeto, exposto no Museu Grão Vasco, constou de duas partes. A primeira foi dividida em quatro capítulos, obedecendo à simbologia dos quatro elementos (terra, água, fogo e ar), que a época medieval soube interpretar e manifestar com uma mundividência adequada. A segunda parte teve como palco a própria Sé de Viseu, de qual S. Teotónio foi prior, como microcosmos capaz de multiplicar as referências iconográficas e religiosas.

O catálogo, para além da descrição e comentário das peças expostas, apresenta uma primeira parte, subordinada ao título “São Teotónio. Contextos e espiritualidade” (p. 17-83), com quatro textos que estabelecem as coordenadas histórias, religiosas, artísticas e teológicas da época, do homem e da obra de S. Teotónio. Assim, na p. 19, o estudo de Maria Leontina Ventura e de João da Cunha Matos, “O Entre Douro e Tejo ao tempo de S. Teotónio”, começam por definir Teotónio como um “interventivo cidadão de uma Europa em movimento”, “numa época de profunda e ampla transformação demográfica, política, económica, eclesial e eclesiástica” (p. 19). É sobre este último contexto que se debruça o estudo de Maria Alegria Marques (p. 39), “O contexto eclesiástico das dioceses de Coimbra e Viseu à época de S. Teotónio”, tendo em conta o facto de este ter sido “não só um dos protagonistas da história de duas importantes instituições religiosas das terras do Sul de Portugal, pela época, como, e sobretudo, foi um importante espetador, senão mesmo agente ou, pelo menos, conselheiro, de muitos dos acontecimentos que viveram ou sofreram estas terras sob o ponto de vista eclesiástico” (p. 39). A terceira contextualização é de Carlos Moreira Azevedo, “A iconografia de São Teotónio” (p. 57), onde apresenta interessante estudo da representação da figura do Santo, das vestes e das insígnias, tendo ainda em conta a representação dos ciclos da sua vida, desde a atribulada viagem à Terra Santa até ao momento da sua morte, terminando com o comentário de algumas representações iconográficas na arte contemporânea. O último texto desta contextualização, de Luís Miguel Figueira da Costa, “O báculo de São Teotónio. Tópicos para uma sumária leitura teológica” (p. 73), apresenta uma interessante reflexão sobre a fé, construído à volta do sentido da insígnia que o Santo recebeu de S. Bernardo e que nos “guia para o esplendor do íntegro, para as linhas sublimes da irresistível atração pela visão de Deus” (p. 79).

A leitura atenta destes quatro textos prepara o conhecimento para a segunda parte do catálogo, “São Teotónio. Os quatro Elementos” (p. 82-193), que reúne cinquenta e cinco fichas, distribuídas por quatro sequências. A primeira, “Terra. O Reino de Portugal ao tempo de S. Teotónio”, agrupa “um conjunto significativo de referências, imagéticas e documentais, que testemunham a construção do território, as suas gentes, as dinâmicas da constituição do reino ao tempo de S. Teotónio, com testemunhos singulares da vida da Diocese de Viseu, a cujo Cabido da Catedral presidiu enquanto Prior” (p. 86). A segunda sequência, “Água. Peregrinos dos Absoluto”, remete para a paisagem física e interior da peregrinação de São Teotónio aos Lugares Santos, mostrando na travessia marítima a metáfora da vida humana. Com o título “Fogo. O ideal regrante”, a terceira parte do catálogo centra-se sobre o exemplo de São Teotónio enquanto modelo desse ideal, “que o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra traduziu de forma marcante desde os seus inícios, enquanto projeto da vida comunitária” (p. 133) e que contaminou toda a vida religiosa do Portugal do século XII. A quarta e última parte, “Ar. Brilho da Santidade”, invoca “algumas das figuras que marcaram o sentido da santidade na comunidade portuguesa, de Santo António de Lisboa a São Nuno de Santa Maria, o ‘Santo Condestável’, que terminou os seus dias como donato carmelita” (p. 147). Para além do núcleo do Museu Grão Vasco, foram ainda catalogadas sete peças de extrema importância, sinal da devoção das gentes de Viseu, que compõem uma quinta parte, “Microcosmos. Itinerários da Memória”. São de realçar os painéis de azulejo setecentistas do claustro da catedral, com cenas da vida de São Teotónio, e o braço-relicário do Santo. Foram autores da catalografia: João Soalheiro, Virgínia Gomes, José Alberto Seabra Carvalho, Vítor Serrão, Lúcia Maria Cardoso Rosas, Manuel Luís Real, Maria de Fátima Eusébio, Nuno Resende, Teresa Vale, António Filipe Pimentel, Fernanda Alves, João Nunes, Sara Augusto, Fernanda Campos, Maria João Vilhena de Carvalho, Manuel Joaquim Moreira da Rocha, Patrícia Roque de Almeida.

A obra termina com uma reunião de documentos produzidos no âmbito das comemorações jubilares de São Teotónio: a Homilia da Missa Pontifical e a conferência quaresmal, “São Teotónio, mestre de comunhão na Igreja Sinodal”, ambos proferidos por D. Ilídio Pinto Leandro, bispo de Viseu, para além da descrição das comemorações e o registo fotográfico, por Maria de Fátima Eusébio.

Na contracapa foi também impressa a Oração Jubilar a São Teotónio, conferindo um sentido maior às comemorações levadas a cabo e à edição de uma obra capaz de perpetuar um tributo devido: “Concede-nos do Senhor nosso Deus e de Maria, Senhora do Altar-Mor, a Fé, a Esperança e a Caridade para sermos, hoje e sempre, testemunhas de Jesus Cristo Nosso Senhor que vive na unidade do Espírito Santo”.

Recensão por Sara Augusto, Invenire, nº 7 (Jul-Dez. 2013), p. 74

Obra disponível na loja online do SNBCI