Editorial

A herança patrimonial da Igreja Católica em Portugal, rica na diversidade, plural nas referências e repleta de potencial, é, sem dúvida, um dos seus mais notáveis legados. Instrumento pastoral indispensável em contexto eclesial, a sua função primordial ao longo dos séculos, continua a ser hoje uma das suas mais relevantes missões. Património cultural verdadeiramente arreigado no seio das comunidades, que perpetua, frequentemente, uma utilização cultual, o cuidado que urgentemente reclama pretende, prioritariamente, devolver-lhe o sentido. Mas é também um legado actuante, gerador de uma permanente actividade nos mais diversos sectores. Aos que detêm a sua custódia compete preservá-lo e divulgá-lo. Só com uma consciente política de valorização se alcança este desígnio.

Mas os custos acrescem e os recursos escasseiam. As dioceses não têm capacidade para investir convenientemente no seu património, é certo. Há todavia que assumir prioridades, pois outros são os problemas que a Igreja enfrenta nesta relação com os seus Bens Culturais. O terreno é árido, o âmbito de actuação vastíssimo e o percurso ainda muito longo. O desconhecimento, a incúria, o amadorismo minam, vezes demais, a tarefa.

Numa estratégia consciente, bem entendido, a profissionalização e requalificação dos meios são medidas inadiáveis. Não basta boa vontade para participar num projecto de tal envergadura. É preciso capitalizar competências, envolver pessoas qualificadas, exemplos empenhados de um profissionalismo contagiante no seio das dioceses. Não há outra forma de se inverter, responsável e eficazmente, esta tendência.

Mas este não é, felizmente, o panorama nacional. É o cenário fácil e perturbador, que causa impacto, mas amputado a um universo bastante mais alargado.

É um facto que muito há a fazer para que este património reassuma uma real função pastoral, e exerça o seu desejável contributo no desenvolvimento cultural e estratégico das regiões. É também certo que a realidade nacional é muito díspar na implementação de medidas estruturantes, mas esse é já o rumo de diversas dioceses.

O episcopado português tem assumido, sobretudo na última década, uma postura bastante mais consequente e empenhada na sua relação com o património. Com um desempenho actuante e exigente, várias são as dioceses que apostam, substantivamente, nos Bens Culturais da Igreja como área estruturante para uma pastoral alargada à sociedade. Reestruturam-se departamentos, contratualizam-se serviços, integraram-se técnicos qualificados, valoriza-se a colaboração dos leigos e optimizam-se recursos. Em suma, implementam-se estratégias. Os resultados estão à vista. Como nunca, em áreas tão sensíveis como o inventário, a museologia, a conservação e restauro ou a história da arte, se evidencia um claro desejo de valorização e se assiste à consolidação dos projectos. Multiplicam-se as exposições e intervenções qualificadas, promove-se a investigação e divulgação do património, publicam-se catálogos e monografias com critérios científicos.

INVENIRE pretende ser, tão-só, mais um contributo nesta imensa tarefa de valorização e credibilização dos Bens Culturais da Igreja. Intitulada numa alusão etimológica aos termos “invenção”, “descoberta”, reúne uma selecção de contributos nas diversas áreas de actuação do sector. Única publicação que em Portugal se dedica a informar sobre o património cultural, documental e artístico da Igreja, aposta na divulgação de projectos originais, investigações recentes, novas propostas de interpretação e obras pouco conhecidas do público em geral.

O processo de sensibilização encerrou de longa data, cabe-nos agora estimular, operacionalizar e apoiar uma renovada prática para a área dos Bens Culturais da Igreja Católica em Portugal.

Sandra Costa Saldanha

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