Editorial

No ano em que se evocam os cem anos sobre a Lei da Separação, este 2º número da Invenire dá especial enfoque ao tema, em particular aos efeitos sobre o património artístico da Igreja Católica em Portugal.

Questão sensível e da maior importância, que constitui uma das suas consequências mais visíveis, não tem merecido a devida atenção, passando mesmo à margem das inúmeras iniciativas que se têm multiplicado por ocasião do centenário da República e da própria Lei da Separação. Apesar da centralidade do tema, em boa verdade, pouco se tem promovido o debate de ideias. Todo um rumo patrimonial se alterou, desde logo na sua função, ingerência e fruição. É uma discussão que tarda, numa acalmia incómoda, que perpetua contradições e acentua procedimentos avulsos.

Por muitos motivos, mas sobretudo por estes, a Lei da Separação constitui matéria central deste 2º número da Invenire. Mais do que relatar a história, pretende confrontar argumentos e reabrir o debate em torno da urgente necessidade de uma estratégia continuada de salvaguarda e valorização.

Destaca-se assim um enquadramento geral sobre o tema da expropriação dos bens eclesiásticos, por João Seabra, e uma visão assertiva em torno da problemática da dessacralização e despojamento espiritual de muitas destas peças, que Nuno Saldanha compara a uma exposição de múmias, consagrada como uma imagem da Vida.

A constituição dos Museus Nacionais, a questão dos arquivos e a recente intervenção da Provedoria de Justiça no caso da igreja de Santo António de Campolide, são outras tantas abordagens em análise. Numa dicotomia oscilante, entre a “apropriação e o diálogo”, D. Albino Cleto passa em revista cem anos de relações entre Igreja e Estado, a que se seguem as perspectivas de D. Carlos Moreira Azevedo, D. João Lavrador e Filipe Mascarenhas Serra.

Mas muito mais se trata neste 2º número da Invenire. Inaugurando a temática do património imaterial, abre com ensaios de Ruy Ventura, Vitor Serrão e Fernanda Campos. Segue-se a rubrica Portfolio, onde um valioso conjunto de Cruzes Processionais Medievais da diocese do Porto é revelado. Em destaque apresenta-se ainda um topo de cruzeiro Manuelino e um inusitado presépio setecentista, resgatado do esquecimento na aldeia de Lamalonga.

Novidade nesta edição, é a rubrica dedicada a projectos diocesanos de Bens Culturais, com destaque para os trabalhos de inventário em Bragança e Braga, mas também para outros já amplamente consagrados, como o Festival Terras Sem Sombra de música sacra do Baixo Alentejo. Ficamos ainda a conhecer a implementação da recente proposta de Bento XVI, de um “Átrio dos Gentios”, na igreja de S. Nicolau em Lisboa, onde todos são chamados a participar numa série de “diálogos sobre Deus”.

A encerrar este número, Jorge de Brito e Abreu assina o espaço de opinião da revista, conduzindo-nos por uma viagem à história da classificação em Portugal e sua importância no contexto do património religioso.

 

Sandra Costa Saldanha

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