Editorial

As diversas problemáticas inerentes à prática da Conservação e Restauro de Bens Culturais da Igreja em Portugal constituem o tema central deste número da Invenire. Assunto complexo que reclama, de longa data, um debate frontal, que atente à idoneidade dos procedimentos, identificação das intervenções e renovação dos meios, entronca ainda em contexto particularmente estigmatizado pelo desconhecimento e incúria, onde o amadorismo, quantas vezes gerado em actos de voluntarismo, se sobrepõe à qualidade.

Com constrangimentos que ultrapassam as sempre evocadas dificuldades financeiras, muitos desses obstáculos encontram fundamento numa autonomia local sobremaneira nociva, de entendimento paroquial, alheia a uma necessária visão nacional. Panorama de aparente inércia, agravada ainda por uma frágil organização institucional, carece de uma acção mais escrupulosa, tanto ao nível do acompanhamento, como na aplicação das regras.

Mas é também verdade que esta não é a única realidade. Propondo uma reflexão sobre o tema, este número da Invenire conta assim com o contributo de diversos especialistas que, seja pela prática da profissão, seja pelo contacto directo com a realidade das dioceses, nos dão a conhecer as suas experiências concretas.

Maria de Fátima Eusébio traça um panorama assertivo, em torno das fragilidades da conservação e restauro do património da Igreja, com particular incidência para a complexidade das práticas e entendimentos de intervenção. Por outro lado, Francisca Figueira, destaca o papel que o conservador-restaurador deve exercer na partilha de responsabilidades, chamando assim a atenção para a urgente necessidade de um envolvimento efectivo destes profissionais.

Analisados depois alguns casos de estudo, nos campos da pintura, fotografia, imaginária e paramentaria, segue-se a reportagem deste caderno, que Rui Almeida dedica à realidade concreta das dioceses portuguesas. Recolhendo e auscultando o testemunho de diversos responsáveis, dá especial enfoque à aplicação das normas e das boas práticas.

Encerra este caderno a apresentação do grupo de trabalho para a área da Conservação e Restauro, recentemente criado pelo Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja, e as perspectivas de Isabel Raposo de Magalhães, Eva Raquel Neves e José Paulo Abreu.

Mas outros são os temas a que se dedica este 3º número da Invenire. Iniciado com a habitual rubrica de investigação, aqui se apresenta um estudo sobre a temática do ex-voto pictórico português, a análise de um curioso caso de difusão do culto de Nossa Senhora e uma proposta modelar de catalogação de azulejaria de padrão. Segue-se o Portfolio, desta vez dedicado ao emprego de pedras preciosas em contexto devocional, com uma selecção de peças provenientes da Arquidiocese de Évora, escolhidas pelo gemólogo Rui Galopim de Carvalho.

Espaço ainda para a descoberta de algumas obras inéditas do património eclesial português: uma Lamentação sobre o corpo de Cristo, atribuída por Vitor Serrão ao pintor André Reinoso; um retrato do célebre gravador Michel le Bouteux, analisado por José Félix Duque; e uma graciosa pintura rococó da Matriz de Alpiarça, dada a conhecer por Tiago Moita. Francisco Queiroz introduz nesta edição a interessante problemática da articulação entre arquitectura contemporânea e preexistências.

Segue-se a secção de projectos, com destaque para algumas actividades em curso nas dioceses portuguesas, e a rubrica de opinião, onde Varico Pereira se debruça sobre o tema do turismo religioso, na sua dualidade entre a fruição da arte e a contemplação do sagrado.

Sandra Costa Saldanha

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