Editorial

Cumprindo o quarto ano de edição regular da Invenire, retomamos a abordagem ao Inventário, como tema central de mais um Caderno. Desafio de longa data entre os responsáveis pelos bens culturais da Igreja, constitui, como é sabido, uma ferramenta indispensável no processo de conservação, protecção e valorização do património religioso. Motor de desenvolvimento de diversas iniciativas, tem motivado a concretização de projectos sólidos e criteriosos, de indiscutível alcance pastoral e cultural. Ultrapassando a simples necessidade da Igreja conhecer o património à sua guarda, tem permitido resgatar acervos de extraordinária qualidade e grande relevância, constituindo, em boa verdade, um caminho fascinante de descoberta, de um legado fundamental, reflexo da fé e da cultura nacional. Não se trata apenas de o conhecer e registar, mas de o devolver, com dignidade e apreço, à sua primordial função, estimando-o e dotando das condições necessárias ao cumprimento de tal missão.

Desvendado um pouco do panorama nacional nesta matéria, inicia-se este Caderno evocando alguns legados referenciais, como foram aqueles deixados por Luiz Keil, António Nogueira Gonçalves ou Túlio Espanca. Um ponto de situação é feito por António Marujo e Rui Almeida, dando conta dos trabalhos em curso e do seu papel em contexto museológico.

À semelhança das anteriores edições, revelam-se neste número dados inéditos e novas interpretações em torno do património eclesial português. É o caso do artigo assinado por Eduardo Carrero Santamaría, onde o historiador defende o papel nevrálgico do claustro nas catedrais medievais; o estudo de Joana Antunes, Joaquim Caetano e Maria João Carvalho, onde os autores comprovam, revelando novos dados documentais, a intervenção do prestigiado escultor Olivier de Gand em importantes obras nacionais; a assertiva análise de Carla Varela Fernandes, em torno de obras de arte deslocadas dos seus contextos originais; o estudo de dois programas iconográficos por Celso Mangucci, nas igrejas eborenses de São Tiago e São Mamede; ou ainda as relações entre parenética e as directrizes tridentinas sobre a produção de obras de arte, por Paula Figueiredo, que resgata do esquecimento um interessante conjunto de púlpitos seiscentistas da diocese da Guarda.

Lugar ainda para a rúbrica Perfil, onde o musicólogo Rui Vieira Nery defende que a Igreja deve abrir caminhos, dando a conhecer o seu reportório musical, a secção dedicada a projectos recentes em matéria de bens culturais da Igreja, e a habitual rúbrica de opinião, assinada neste número pelo bispo D. Pio Alves.

Sandra Costa Saldanha

Artigos Relacionados