Editorial

Fiat Lux! Com este título se apresenta o primeiro número temático da revista Invenire, dedicado integralmente à iluminura em Portugal. O conjunto de estudos abrange aspectos distintos desta arte de ilustrar o livro manuscrito na Idade Média, arte que é, sem dúvida, também ela, uma imagem e um símbolo que associamos ao papel e à presença da Igreja na história da cultura escrita da época medieval.

O “fazer luz” que aqui se evoca deve ser visto em duas vertentes: por um lado, temos a luz que associamos à forma como a representação mais ou menos figurativa que complementa a leitura dos textos é um reflexo do pensamento e da mundividência do seu tempo. Por outro lado, pretendemos fazer luz ao público interessado de hoje apresentando as imagens no livro iluminado de forma a criar uma nova linguagem do ver que ultrapasse a natural empatia que todos sentimos na admiração de imagens que são um elo de ligação entre os tempos actuais e os passados. Os exemplos que se apresentam, contextualizados por uma investigação rigorosa, ajudam-nos a desvendar saberes, estilos, modelos de uma expressão artística que se desenrola ao longo de séculos, revelando influências várias e desvendando no limite, a relação entre o espiritual e o material.

Atravessamos, felizmente, um tempo em que o interesse pelo estudo da iluminura se encontra consolidado e motiva à prossecução de novas e renovadas pesquisas em torno de um património que, no caso de Portugal, é constituído por um número expressivo e variado de manifestações, umas produzidas no próprio território outras vindas de países estrangeiros. O livro, principalmente o manuscrito é um incansável viajante. Ao tempo dos scriptoria monásticos circulava para assegurar a feitura das cópias necessárias às bibliotecas das casas religiosas. A partir do século XIII, quando emergem novas formas de livros ligados a uma progressiva laicização e individualização da leitura, ainda que maioritariamente de características devocionais, a produção do livro e a sua iluminação passam para artistas leigos. Dá-se assim, origem a um outro ciclo de “viagens” ou passagens de mão, onde os livros se equiparam às peças de ourivesaria, de escultura ou de tapeçaria. Para muitos deles ainda se desconhece como vieram para Portugal (ou como saíram de Portugal…) sendo certo, porém, que tendo representado ao tempo um símbolo do poder de quem os encomendava, continuaram a sua viagem de objecto de arte, admirado, cobiçado e naturalmente transaccionado até chegarem à posse de colecções públicas e privadas.

Essa diversidade de proveniências e de instituições custodiais está bem patente no conjunto que ora se apresenta. O valor patrimonial tem, por conseguinte, dimensões diferentes mas que se completam. Tomados individualmente ou estudados em comparação certo é que textos e imagens ganham outra luz aos olhos de quem os vê ou revê através destes estudos.

Cumpre-me agradecer à directora da Invenire, Doutora Sandra Costa Saldanha, a confiança que em mim depôs para tornar realidade este número e muito especialmente à Professora Maria Adelaide Miranda, cujo muito saber e entusiasmo influencia estes estudos. Aos autores é devido um grande obrigada, com um grato destaque para a Catarina Fernandes Barreira que me sugeriu a feitura deste número e comigo colaborou incansavelmente para que hoje, com o esforço de todos, possamos dizer aos nossos leitores Fiat Lux!

Fernanda Maria Guedes de Campos

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